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Picotas, Rodas e Noras

  Picotas, Rodas e Noras    No tempo em que ainda não havia rede pública de eletricidade em Oleiros, a elevação de água dos numerosos poços existentes na vila e arredores, com vista à irrigação de hortas e quintais, fazia-se com recurso à força muscular de animais e até do próprio homem.    A engenhoca milenar, conhecido em Oleiros por picota (também designada por cegonha noutras terras), era a mais simples e rudimentar técnica de elevação de água. Era constituída por uma longa vara de pinheiro ou eucalipto, e tinha um eixo mais ou menos a meio do seu comprimento, em torno do qual basculava, apoiando-se no topo de uma coluna de pedra ou de madeira. Numa das pontas desta vara aplicava-se uma ou mais pedras, suficientemente pesadas, para servirem de contrapeso ao equilibrar um balde cheio de água dependurado da ponta de uma outra vara mais delgada suspensa da vara principal, na extremidade oposta à das pedras. O balde era descido para ser mergulhado na água ...

Passeio da Academia Sénior de Oleiros

      De forma imprevista, a Direção da Academia Sénior de Oleiros, decidiu organizar, no dia 20 de dezembro de 2023, um passeio cultural contemplando todos os inscritos na Academia. A decisão foi inesperada porque não correspondia a nenhum dos objetivos que habitualmente norteiam estas iniciativas: encerramento das atividades académicas no final do ano letivo, ou forma de complementar matéria lecionada em determinada disciplina. Por outro lado, a decisão foi tomada e anunciada num curto espaço de tempo, pelo que muitos alunos não puderam participar no evento, por terem já programado as suas vidas pessoais noutro sentido, com a agravante de o passeio se realizar na semana anterior ao Natal, altura em que algumas famílias têm a vida mais ocupada ou se deslocam para outros lugares para festejar a época natalícia.    O passeio destinava-se a visitar o Museu do Trabalho Michel Giacometti, em Setúbal, e o Museu da Música Mecânica, em Pinhal Novo, tendo sido anuncia...

Dia do Idoso

  Dia do Idoso        No dia 5 de outubro de 2023 celebrou-se em Oleiros o Dia do Idoso, que reuniu no pavilhão Multiusos cerca de 900 idosos de todo o concelho. À semelhança de anos anteriores, a principal ação das celebrações centrou-se num monumental almoço coletivo oferecido pelo Município.      Antes de servir o repasto realizou-se no mesmo local uma missa presidida pelo padre Luís. Esta ideia de introduzir no programa uma missa é algo estranha. É caso para perguntar “por alma de quem?” Nem sequer era um domingo ou dia de qualquer festividade religiosa. Ademais, o local e o ambiente não reuniam as condições ideais para um ato litúrgico. As pessoas que quiseram assistir à missa estavam já ajeitadas nas mesas em que iriam almoçar e nem sequer respeitavam o silêncio que aquele ato de culto exigia, como também o não respeitavam os mirones que por ali cirandavam à espera do almoço. Havia no ar um bruaá nada condizente com aquele ato religioso...

O Miradouro de Siza Vieira

  O Miradouro de Siza Vieira      Ora aí está, mais uma descomunal inutilidade parida pela edilidade municipal. Não bastavam os passadiços do Orvalho, aquele inestético amontoado de tábuas e barrotes, vem agora esta monstruosidade intrometer-se no belo cenário da serra do Moradal. É mais uma “ecoparolice” irresponsável, que nada vem adiantar à beleza da serra, antes pelo contrário: este monstro de betão armado só vem desfigurar a paisagem. A Natureza é bela em si, não precisa de apêndices. Será difícil perceber isto?    Na publicação “Oleiros Magazine” de agosto de 2023 sublinha-se o facto de apresentar “uma vista panorâmica de 360º sobre o vale do Zêzere”. É propaganda falsa, visto que o rio corre a uma distância considerável do miradouro, e as suas margens escondem-se atrás dos montes envolventes. O admirável vale que se estende lá no fundo, esse sim, visível, é atravessado pela ribeira da Zebreira. Quanto à visão panorâmica, o miradouro em nada a v...

Descaminhos

  DESCAMINHOS        Um povo sem memória é um povo sem história. Um povo que não preserva o seu passado conservando documentos e monumentos não entra na História.    Oleiros tem uma história quase milenar como o atesta um documento datado de 1194, relacionado com a Ordem de Malta, onde o seu nome é citado de forma inequívoca. Todavia, os testemunhos do passado, sejam eles objetos palpáveis ou documentos escritos, são muito escassos, porque nunca houve a preocupação de os conservar, ou se, em casos pontuais, existiu algum interesse, acabaram por se perder sem deixar rasto. Ainda hoje não existe essa preocupação, salvo raríssimas exceções. Aliadas a uma deplorável ignorância, tem havido ao longo dos tempos uma certa incúria e desinteresse pela preservação de documentos que possam refazer o passado e perceber o que tem sido o povo desta terra.    Ao longo da história recente de Oleiros, são muitos os exemplos de desleixo e indiferença, por...

A "Cerâmica" de Oleiros

  A “CERÂMICA” DE OLEIROS Os recursos naturais e a geologia de uma região determinam muitas vezes o aparecimento de uma atividade específica local. Em Oleiros aqueles recursos não são uma riqueza por aí além. Também os xistos e grauvaques que caraterizam a geologia da região não prenunciam qualquer atividade digna de nota. Ainda assim, nos anos 50 do século passado, alguém se lembrou que os afloramentos de argila localizados à volta da vila poderiam ser a base de uma indústria de cerâmica. Não há registos históricos de que alguma vez se tenha aproveitado aquela matéria prima para fins industriais, pese, embora, a etimologia do topónimo “Oleiros”, que alguns julgam assentar num ancestral fabrico de loiça de barro, mas sem bases históricas seguras. A teoria mais consensual é a de que aquele topónimo deriva do étimo “olleiros” com o significado de “olhos de água” numa clara alusão às abundantes nascentes de água existentes na região. Todavia, esta teoria carece de fundamento cie...

As tabernas de outros tempos

  As tabernas de outros tempos      Em meados do século passado as tabernas proliferavam em Oleiros, dando à vila um certo colorido e animação. Eram pontos de encontro e de convívio, locais onde os homens passavam os seus momentos de lazer num tempo em que ainda não havia televisão nem polos de atração, culturais ou recreativos ou, pelo menos, os que existiam eram incipientes.    Tudo era pretexto para ir à taberna beber um copo. Convidavam-se os amigos e não se recusava a companhia de quem estivesse por perto. Beberricava-se ou bebia-se o copo de uma assentada para, desse modo, afirmar uma certa personalidade que, neste caso, era sinónimo de valentia. Para situações de maior privacidade havia quase sempre um compartimento mais recatado e discreto, o “escondidinho”. A “cova funda” era também um local reservado e só a ele tinham acesso os mais próximos do taberneiro. Em geral, era neste espaço que se guardavam as pipas de maior envergadura e era delas ...

A Levada da Casa Grande

  A Levada da Casa Grande    Tempos houve, num passado recente, em que ter uma horta em Oleiros era necessidade imperativa para qualquer família da vila. Nessa altura ainda não havia supermercados nem lojas onde hoje qualquer pessoa tem ao seu alcance toda a espécie de hortaliças e de legumes de que necessita no seu dia a dia. Além das pessoas que viviam da agricultura como forma de trabalho, também os funcionários públicos, naturais da terra ou oriundos de fora, nos quais se incluíam os elementos da GNR de serviço em Oleiros, precisavam de um pedaço de terra para “hortelar”. Tal necessidade resolveu-se, em parte, com a criação de pequenas hortas ao longo de uma conduta de água, que a Casa Grande construiu no início do século XIX com o objetivo de irrigar os seus extensos milheirais situados nas proximidades da vila. Em simultâneo, a energia hídrica do caudal foi aproveitada para alimentar dois moinhos de cereais, junto da Fonte das Freiras, na fase final do seu traje...

A Ribeira de Oleiros

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  A Ribeira de Oleiros      A ribeira que banha a vila de Oleiros e lhe dá vida, recebe três nomes diferentes ao longo do seu percurso. É “Ribeira de Perobeques” no Estreito, onde nasce, “Ribeira de Oleiros” ao passar pela vila e “Ribeira da Sertã” quando desagua no rio Zêzere. Não é caso único, pois ocorrem situações semelhantes em Portugal com outros cursos de água.    Curioso é o topónimo da nascente, cuja etimologia tem origem em “Pedro Vasques” nome de um ancestral proprietário do terreno onde começa a ribeira e que veio a dar o termo bizarro de “Perobeques”, corruptela do seu nome inicial. Mais bizarro ainda é o topónimo que figura na carta militar nº 266, de 1946 (ainda em uso), o qual é grafado como “Ribeira de Perbex”, para designar o curso de água em questão, em que a letra “x” deverá ser pronunciada [ks] (à semelhança do “x” da palavra índex) . Facilmente se deduz que o cartógrafo militar de serviço, ao indagar o nome daquele riacho, junto ...

Dendrofobia

  Dendrofobia   Medrava no quintal da minha vizinha um imponente e lindíssimo cedro. Fora plantado em 1982, por ocasião de uma campanha de reflorestação de terrenos de pinhais ardidos, cujas novas árvores, doadas pelo Governo, ficaram conhecidas por “pinheiros do Balsemão”, alusão à iniciativa do primeiro-ministro de então. Por várias vezes a vizinha exprimiu vontade de abater aquela árvore com receio de que ela viesse a cair, causando estragos na vizinhança, eventualidade pouco provável já que o pinheiro, como ela lhe chamava, tinha um aspeto bastante saudável e estava bem enraizado, considerando o tipo de terreno em que se encontrava implantado. Sempre que ela aludia à sua intenção e eu lhe pedia que não cortasse a bonita árvore, ficava muito admirada porque, na opinião dela, os vizinhos nunca gostam de árvores nos quintais ao lado, por lhes fazerem sombra e sugarem os nutrientes do solo. Não era o caso e nunca acreditei que o abate se viesse a concretizar. Um dia dest...

AS ÁRVORES DA DEVESA

  AS ÁRVORES DA DEVESA      O espaço, popularmente conhecido em Oleiros por Devesa, a que recentemente foi dado o nome de Praça do Município, nunca teve apetência para construções de grande vulto, dada a constituição geológica do seu subsolo, pouco favorável a tal fim. Trata-se de um terreno muito instável constituído por matéria orgânica e outros detritos acumulados ao longo dos anos, com uma ligeira escorrência para noroeste. Ainda existem evidências de uma linha de água orientada para o ribeiro dos Cancinos.      Em tempos recuados, o espaço foi utilizado como logradouro e terreno hortícola. A partir dos anos 30 do século XX começou a ser arborizado pela Câmara Municipal, onde foram introduzidas dezenas de árvores ornamentais da espécie Robinia pseudoacacia, conhecidas popularmente por “árvores-da-devesa”, das quais ainda restam 3 exemplares já muito decrépitos, mas que ainda produzem abundante folhagem. São plantas de folha caduca,...

A Mata dos Chãos

  A Mata dos Chãos    Na primeira metade do século XX prosperou no lugar dos Chãos uma mata de árvores exóticas coexistindo com outras espécies autótones. Esta exuberante mata tinha sido mandada plantar por José Antunes Pinto, veterinário de profissão, antigo proprietário das Casas da Comenda, conhecido em Oleiros por “Pinto do Adro”.    Não se conhece nenhum registo das espécies ali plantadas, todavia graças à memória de alguns oleirenses, sabe-se que, do acervo botânico daquele aprazível bosque, se destacavam muitas pináceas bem desenvolvidas, tais como abetos, cedros, larícios, pinheiros-radiatas, pinheiros-silvestres, tsugas e pseudotsugas. Como o seu proprietário apreciava a variedade botânica, juntou espécies de outras famílias, nomeadamente, ciprestes, tuias, áceres, freixos e ulmeiros.    As árvores eram plantas de grande valor paisagístico, não só pela sua beleza mas também pela raridade de algumas espécies.    Daquele rico p...