A minha escola primária

 

A MINHA ESCOLA PRIMÁRIA 

Em 1949, com a idade de seis anos, entrei para a escola primária. O edifício era novo, pois tinha sido inaugurado dois anos antes. Era mais uma escola abrangida pelo “Plano dos Centenários”, que o Estado Novo estendeu a todo o país com o objetivo primeiro de combater o analfabetismo, demasiado acentuado em todo o território nacional.

Em Oleiros, antes de implementado aquele projeto, a escola primária funcionou, sempre de forma transitória, em vários locais da vila, o último dos quais tinha sido nas instalações do hospital, que, de hospital, tinha apenas o nome. Já tinha passado pela “Comenda”, pela casa da família Romão, pelo rés do chão do edifício da Câmara Municipal e por uma casa na Praça, que na altura pertencia ao comerciante António Gonçalves de Andrade

O moderno edifício da escola primária, que ainda hoje funciona, mas agora como escola do 1º ciclo, sem alterações arquitetónicas significativas (pelo menos na fachada principal), tem 4 salas de aula distribuídas por 2 pisos. Em cada um destes pisos existem 2 amplos vestíbulos de entrada, 1 pátio (agora tapado) e, anexo a este, um conjunto de instalações sanitárias. Entretanto foram acrescentadas novas instalações com funções modernas, nomeadamente um serviço de refeições.

Naquele tempo todos estes equipamentos estavam divididos pelo sexo masculino e pelo sexo feminino, de tal forma que os meninos e as meninas, desde que entravam de manhã até que saíam ao meio da tarde, nunca se cruzavam. Mesmo no exterior, tanto à frente como atrás do edifício, existia uma vedação de arame que impedia a mistura dos alunos. Mais tarde esta vedação foi retirada, mas a separação sempre existiu, pelo menos simbólica.

Segundo o “Plano dos Centenários”, os projetos para a construção das escolas primárias obedeciam a critérios rigorosos, mas nem sempre levavam em conta as especificidades de cada região, pelo que a funcionalidade de alguns elementos estruturais podia ficar comprometida. Por outro lado, as escolas não eram dotadas dos meios orçamentais necessários para que o seu funcionamento fosse inteiramente eficaz.

As salas de aula dispunham de uma bonita e funcional lareira, mas não havia dinheiro para comprar lenha. Assim, em dias invernosos tiritava-se de frio durante as aulas e os alunos que vinham de longe, debaixo de chuva, não tinham onde secar a roupa.

Como não havia serviço de limpeza organizado, esta era feita pelos próprios alunos, geralmente aos sábados depois das aulas, sob orientação dos professores. Consistia essencialmente em varrer o chão, onde se tinha acumulado uma razoável quantidade de terra trazida pelo calçado dos alunos, depois de terem calcorreado muitos caminhos poeirentos ou lamacentos antes de chegarem à escola. Para evitar nuvens de poeira dentro da sala, antes de começar a varrer espalhava-se pelo chão uma boa quantidade de serradura bem molhada.

As instalações sanitárias, razoavelmente bem apetrechadas, tiveram utilização curta e em pouco tempo ficaram completamente inoperativas por falta de manutenção e de limpeza, que deviam ser diárias, como se impõe em situações normais. De facto, grande parte das crianças, oriundas de lugares acentuadamente rurais, não possuía os mais elementares hábitos de higiene e não sabia utilizar corretamente os sanitários. Tudo isto, aliado ao facto de a escola não dispor de verba no seu orçamento para serviços de limpeza, tornou aquele espaço nauseabundo e ineficaz. Assim, tanto os meninos como as meninas, cada qual no seu território, faziam as suas necessidades fisiológicas nas traseiras da escola por entre as moitas de giesta, que por ali cresciam espontaneamente em abundância, ou mesmo em espaço aberto sem quaisquer complexos de pudícia. Então, nos intervalos das aulas, saíam todos em alta vozearia e alegre correria dirigindo-se em bando para as traseiras do edifício escolar, em campo aberto, para as suas necessidades naturais.

Os momentos de recreio eram sempre aguardados com grande ansiedade. As meninas brincavam às “casinhas” ou faziam animadas danças de roda. Os rapazes, geralmente mais vivaços e irrequietos, dedicavam-se a outras brincadeiras. Desde os jogos calmos praticados em qualquer recanto do recreio, até aos mais violentos, ninguém ficava indiferente à possibilidade de expandir as suas energias e emoções lúdicas. Os densos silvados existentes nas proximidades da escola era o local preferido para os jogos mais dinâmicos. Aqui transformava-se a vegetação cerrada em “mar encapelado” e procurava-se o “caminho marítimo para a Índia”, com inspiração nas aulas de História. Destas brincadeiras resultavam muitas vezes fortes arranhões provocados pelas silvas e outras plantas não menos espinhosas. Nestas aventuras era frequente invadir os terrenos adjacentes pertencentes à ti’Maria Gertrudes, que não conseguia refrear uns quantos impropérios dirigidos aos buliçosos rapazes, que lhe estragavam as bonitas rosas do quintal, tão bem acarinhadas por si e pelo seu companheiro, o ti’Carlitos. Perto morava a ti’Maria de S. Sebastião, velhota de voz muito fanhosa, que também não engraçava muito com o rapazio escolar, por causa das suas traquinices. Esta senhora vivia numa casota que o Estado lhe tinha construído ali ao lado, para se poder utilizar o terreno da sua anterior habitação na construção da nova escola. 

Outro local apreciado pelos rapazes para as suas brincadeiras era uma tosca estrutura de madeira, que na altura servia para armazenar barricas de resina, antes de serem transportadas para a fábrica de produtos resinosos do Casal Novo. Não era propriamente o sítio mais indicado para brincar devido à grande abundância de agregados de resina, mas os gaiatos não davam conta disso e por ali deambulavam nas suas constantes traquinices. Ao chegar a casa com o fato pegajoso e cheio de nódoas iriam ouvir uns ralhetes bem merecidos dos respetivos pais.  

Dos jogos mais calmos destacava-se o jogo do pião, o jogo do fito, o jogo do arco e o jogo da bilharda. 

Curiosamente, o futebol não tinha a popularidade que tem hoje, talvez porque implicava a utilização de uma bola, que em tempos de penúria nem sempre era fácil obter. Se alguém, por acaso, a conseguia trazer de casa, então sim, improvisava-se logo ali um renhido desafio de futebol, num campo onde as balizas eram delimitadas por dois pedregulhos. Muitas vezes jogava a “vila” contra o “termo”. 

A escola não dispunha de quaisquer jogos ou material desportivo para utilização dos alunos, pois o desporto, como atividade circum-escolar não era suficientemente valorizado. No entanto, havia uns arremedos de ginástica a nível de um pequeno núcleo da Mocidade Portuguesa. A participação da juventude nesta organização cívica era obrigatória por lei, mas em Oleiros, devido à sua acentuada ruralidade e às dificuldades económicas da população, não tinha grande expressão. Em situações pontuais o grupo fazia a sua aparição pública, que tanto podia ser na Devesa como no recinto da Santa Margarida. Neste último espaço chegaram mesmo a organizar-se acampamentos à escala do pequeno núcleo. Este não passava de meia dúzia de elementos, cujos pais tinham possibilidade de lhes comprar o fardamento que envergavam em dias festivos. O presidente da Câmara de então, Augusto Fernandes, tinha adquirido para o grupo, algumas fardas, um estandarte e um tambor. Será que este material ainda existe? 

Associada a este grupo está a saudação que se fazia aos professores, logo pela manhã, quando estes entravam no recinto da escola. Era a conhecida “saudação alemã ou nazi”, por vezes também chamada “saudação romana” (braço estendido num ângulo um pouco a cima da horizontal). 

Nos vestíbulos de entrada de cada sala de aula, bastante amplos, como já foi dito, havia prateleiras e cabides destinados aos alunos, mas, naquele tempo, nunca foram atribuídos de forma organizada e estavam quase sempre vazios. 

Não havia pessoal auxiliar, pelo que os únicos funcionários da escola eram os próprios professores: um por cada sala de aula. 

Em 1949 o corpo docente era constituído por Francisco Alves de Matos (delegado escolar), D. Gracinda Romão (esposa daquele), D. Adélia Lopes Amoreira Serra e D. Maria da Ressurreição.  

Tive como professora na 1ª classe a D. Adélia, senhora já idosa, natural de Nisa. Na 2ª classe esta foi substituída por José Manuel Barreiros, jovem professor, que se manteve em Oleiros apenas um ano. Este foi então substituído pela D. Maria do Carmo Martins, que tinha acabado de concluir o curso do Magistério Primário, instituição por onde passavam todos os professores do ensino primário. A D. Maria do Carmo foi a minha professora durante a 3ª classe e a 4ª classe, e, logo a seguir, durante mais um ano de preparação para o exame de admissão aos liceus. Este último ano decorreu, de forma particular, em casa da professora. 

Em cada sala de aula funcionavam simultaneamente duas classes: 1ª classe + 3ª classe, e, no ano seguinte, 2ª classe + 4ª classe. Com programas bastante diferentes em cada uma das classes, os professores tinham de coordenar o ensino de forma a obter alguma eficácia. Este sistema resultava do elevado número de alunos por cada turma, para os quais não havia suficiente número de docentes. 

O sistema de ensino era baseado em métodos antiquados e antipedagógicos que atemorizavam os alunos e os levavam a detestar a escola. Insere-se nessa linha a aplicação abusiva de castigos corporais, como vergastadas nas orelhas e reguadas na palma da mão. Praticamente todos os professores tinham na gaveta da sua secretária uma grossa régua de madeira para esse fim, embora estivesse proibida pela Direção Escolar de Castelo Branco. Tal proibição depreendia-se do facto de os professores procurarem esconder a famigerada régua sempre que se anunciava uma visita do Diretor Escolar. 

Para além do ensino das matérias curriculares definidas pelo Ministério da Educação, normalmente não ocorriam outras atividades formativas dignas de nota, com exceção, talvez, para uma representação teatral associada a outras exibições coreográficas, a que popularmente se chamaram “Comédias” (1952) tendo decorrido no barracão do sr. João Esteves Garcia, junto da antiga serração de madeiras. Nestas atuações artísticas os docentes de então puseram todo o seu empenho, com especial destaque para as jovens professoras D. Maria de Lurdes e D. Maria do Carmo. Foram memoráveis as representações dos alunos João da Rita e Lúcia Matos numa cena teatral bem montada, e a declamação de um tema intitulado “À morte ninguém escapa”, pela voz da pequenita Manuela "da Narcisa".  

Constituíam a minha turma da 4ª classe os seguintes alunos, aqui agrupados por carteiras: 

João Cândido Caldeira + Luís Paula Gonçalves Martins;

Adelino da Conceição Simão + Fernando de Jesus Fernandes;

Daniel Gonçalves Muralha + Manuel Alves Caldeira;

António Antunes Martins + José David Alves Ribeiro;

Alcino Ramos Alves + João Alves Garcia Esteves Flores;

Francisco da Conceição Antunes + Acácio dos Santos Freire;

António Antunes + José de Jesus Fernandes.

 


Comentários

  1. Brilhante descrição como sempre. Sendo do termo, (com muito bem disseste, ) e uma ligeira diferença de anos tudo era igual. A pobreza, a falta de meios, os métodos, e até a peça de teatro era a mesma!. "à morte ninguém escapa" um ravivar de memórias que julgava esquecidas!..
    Obrigado Alcino

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Noite de fados

Destruição de ervas da rua

Certificados de Mérito