A Praça
A Praça
A Praça da República, ou
simplesmente “Praça”, foi noutros tempos o local mais movimentado da vila de
Oleiros. Ali estavam sediadas as mais importantes repartições públicas e alguns
dos mais representativos estabelecimentos comerciais da terra.
A Câmara Municipal e a Repartição da
Fazenda Pública, também conhecida por “Finanças”, ocupavam um único edifício, o
mesmo onde funciona hoje o Centro de Cultura de Oleiros. Neste edifício, a
nível do rés do chão,´ funcionava a Oficina de Aferição de Pesos e Medidas,
departamento dependente da Câmara Municipal. Mais tarde, com a extinção deste
serviço, o espaço foi ocupado sucessivamente pelos Serviços do Fundo do
Desemprego e pelos Serviços de Fiscalização de Obras, estes últimos tutelados
por um departamento de Castelo Branco. Parte do imóvel, também a nível do rés
do chão, foi ocupado durante muitos anos por uma cadeia.
Na Praça sobressai, pela sua
dimensão e arquitetura, um conjunto de edifícios, outrora pertencentes à
família dos “Chaveiras”, e hoje propriedade da Santa Casa da Misericórdia de
Oleiros, onde funciona um Jardim de Infância. Encontravam-se aqui, em locais
distintos, a Conservatória do Registo Civil, o Cartório Notarial e a Tesouraria
da Fazenda Pública que era também Tesouraria da Câmara Municipal. Um
só tesoureiro era responsável pelos dois serviços.
Todas estas repartições, municipais
e estatais, concentrados na mesma Praça, proporcionavam, só por si, um notável
movimento de pessoas. A este movimento vinha juntar-se o que resulta da
existência de importantes estabelecimentos comerciais situados na mesma zona.
Existiam ali dois cafés (o café do sr.
Júlio e o café da Celeste), duas tabernas (a do Arsénio e a do João do Eirigo),
duas lojas de comércio misto (a do sr. António de Andrade e a do sr. Manuel da
“Seladinha”), e uma farmácia. Existia ainda uma bomba de gasolina da “Sacor”
integrada na loja do sr. Manuel da “Seladinha”, que tinha a particularidade de
ser acionada manualmente.
A farmácia era o ponto de
concentração das personalidades mais destacadas da vila, que escolhiam este
local para se encontrarem e conversarem, fosse no interior do estabelecimento
ou à porta deste, se o tempo o permitia. Era, de certo modo, o prolongamento de
um clube que existia ali perto, também conhecido por “clube dos ricos”. Era
assim chamado por oposição a um outro clube que funcionava na atual rua Padre
António de Andrade e que mais tarde se fundiu com o da Associação dos Bombeiros
Voluntários, próximo daquele, na rua do Outeiro.
De todos estes estabelecimentos hoje
quase não restam vestígios.
O ponto mais alto do movimento de
gentes na Praça ocorria aos domingos depois da missa do meio-dia, também
conhecida por “missa do dia”. Das três missas dominicais era esta a que reunia maior
número de fiéis. Depois de cumprido o sagrado preceito do Dia do Senhor, as
pessoas convergiam para a Praça e por ali ficavam durante largas horas em
amistoso convívio. Era uma oportunidade para cumprimentar amigos e transmitir
novidades. Aqui se contratavam os obreiros para as tarefas agrícolas da semana
que se avizinhava, aqui se ultimavam negócios, quase sempre selados à mesa do
café ou da taberna mais próxima. Pairava no ar um certo bruaá que fazia lembrar
o das feiras anuais.
Ao cair da noite dava-se a debandada
das pessoas do termo. Era assim designado o conjunto de lugares que se situavam na periferia da terra. Só o pessoal mais resistentes ficava na vila, e por ali cirandava conversando e
beberricando enquanto houvesse cafés abertos, que, naquele tempo funcionavam
até à uma hora da madrugada. As tabernas, essas, encerravam obrigatoriamente às
9 horas da noite. Estes horários eram escrupulosamente cumpridos pelos
proprietários dos estabelecimentos, que se sentiam intimidados pela
fiscalização mais ou menos apertada da G.N.R.
Hoje a Praça, durante a
semana de trabalho, quase que se restringe a um parque de estacionamento de
automóveis e a um local de passagem. Nos restantes dias não passa de um triste
deserto.
A descrição, nos transporta a lugares que no tempo se vão desvanecendo. Obrigado pelos registos que fazes da nossa vila, que ficam para memória futura!..
ResponderEliminarÉ exatamente esse o objetivo da maioria destes textos: que se não apaguem as boas memórias do passado. Alguns leitores se têm interessado por eles, mas tu, Atilde, és das poucas pessoas, que emitem opinião. Por isso, faço aqui o meu reconhecimento público pela amabilidade dos teus comentários. Alcino
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