A Quinta do Canudo

 

A Quinta do Canudo

 

     Situada em Oleiros, entre o Outeiro e o Ramalhal, a quinta do Canudo era um vasto espaço agrícola, delimitado em todo o seu perímetro por um robusto muro de pedra solta, ainda hoje visível em quase toda a sua extensão, com 610 metros. Entretanto, alguns segmentos foram destruídos para dar lugar a diversas vivendas em finais do século XX.

     A quinta tinha várias entradas, uma das quais ‒ a principal ‒ se situava na atual rua Padre António de Andrade, a curta distância do Ramalhal. Esta passagem ainda hoje ostenta um enorme portão de ferro, no qual sobressaem, em relevo, as letras “AG”, iniciais do nome do seu primeiro proprietário, Adrião Gonçalves. Todo este património foi edificado graças a uma considerável fortuna que este senhor conseguiu amealhar no Brasil, para onde tinha emigrado.

     Em 1907, com vista à construção do muro e dada a envergadura da obra, foi feita uma escritura para garantir a sua concretização. Nela intervieram três pedreiros: João Fernandes, também conhecido por João do Vale da Freira, Adelino Martins (sogro de João Mata, fotógrafo) e Manuel Antunes, do Vale d’Horta, todos coadjuvados por vários serventes.

    A quinta teve o primeiro sistema de água canalizada, de que há memória em Oleiros, a partir de uma nascente existente no Vale de Peixe. A tubagem era de chumbo e tinha de ser reparada frequentemente por ser danificada por populares que surripiavam o metal para o transformar em chumbadas de caça e pesca.

     Conta-se que, em 1937, Adrião Gonçalves precisou de ir ao Brasil mas não tinha recursos financeiros para custear a viagem. Pediu então ao dr. Francisco Rebelo de Albuquerque que lhe emprestasse 5 contos. Para assegurar a devolução do empréstimo, Adrião Gonçalves propôs que se fizesse uma escritura de hipoteca, mas o dr. Rebelo só aceitou a proposta depois de alguma pressão por parte do solicitante. Ao regressar do Brasil, meses mais tarde, Adrião Gonçalves, querendo pagar a dívida ao dr. Rebelo, este exigiu, por sua vez, que se fizesse uma escritura para anulação da hipoteca!  Tanto num caso como no outro, não se tratava de qualquer espécie de desconfiança dos intervenientes. Tratava-se, isso sim, de vincar a honradez de cada um.

     Adrião Gonçalves teve duas filhas legítimas: Iolanda Madeira Gonçalves e Adriana Madeira Gonçalves. Esta última tinha formação académica suficiente que lhe permitia dar lições de francês. Tendo-se envolvido em diversas contendas judiciais, em cujos processos ficava sempre a perder, acabou por desbaratar todos os seus bens nos tribunais. Faleceu no lugar da Nora num estado de deplorável indigência.

     Adrião Gonçalves teve ainda dois filhos extraconjugais: Valentina Gonçalves e Mário Gonçalves, mais conhecido por Mário “Canudo”, alcunha que deu origem ao nome por que ficou conhecida a quinta, a qual inclui uma importante casa de habitação. Aqueles dois filhos foram os seus últimos moradores, falecidos há alguns anos, encontrando-se o imóvel desabitado desde essa altura.

     Trata-se de uma das mais antigas casas da vila, de paredes bastante sólidas, cujo interior se encontra em deplorável ruína. Por testamento de Mário Gonçalves, a posse de todo este património passou para as mãos de uma vizinha, situação que ainda hoje se mantém.

     Verifica-se, entretanto, que desde a tomada de posse daqueles imóveis por parte da atual dona, nada foi feito para preservar todo aquele valioso património histórico, tendo-se perdido a cobertura total da casa de habitação, com a consequente degradação do seu interior, de que restam apenas as paredes e algum madeirame que se vai desfazendo aos poucos por estar exposto à intempérie. Em semelhante ruína se encontra o que resta da quinta, anteriormente destinada a atividades agrícolas.

     A casa situa-se na rua D. João Pereira B. de Amaral e Pimentel, também conhecida por rua do Outeiro. De acordo com uma narrativa contida no livro “Memórias da Vila de Oleiros e do seu Concelho”, da autoria de D. João Maria Pereira d’Amaral e Pimentel, bispo de Angra do Heroísmo, a casa pertenceu a este eclesiástico. O seu anterior proprietário tinha sido o frei José Botelho Dourado Pimentel, tio daquele mesmo bispo, que, por sua vez, a tinha comprado à família de Salvador Correia, oriunda de Alvaiázere, quando esta família decidiu regressar à sua terra de origem e vender a casa e todos os restantes bens imóveis que possuía em Oleiros.

     O bispo de Angra refere ainda na sua obra, a probabilidade de aqui ter residido também o padre António de Andrade, considerado o primeiro europeu a entrar no Tibete. Todavia, tal probabilidade não pode ser comprovada documentalmente.

 

Comentários

  1. Consegues sempre surpreender. Pela informação e descrição. Obrigada Alcino.

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